Engenharia
Nota de campo
Douglas H. M. FulberRead in English

Dinheiro, criptomoedas e emoções: o futuro será cyberpunk?

Do dinheiro ao cripto, os mercados caminham em direção às nossas emoções. Altered Carbon, Neuromancer e Alita ajudam a pensar o futuro da tecnologia e do corpo.

A resposta curta

O futuro do dinheiro aponta para protocolos criptográficos e para mercados desenhados em torno das nossas emoções, e a ficção cyberpunk é um bom mapa para pensar os riscos e as oportunidades desse caminho. Ele não precisa ser distópico: a tecnologia é neutra, e o resultado depende de como a sociedade decide usá-la.

O que o futuro nos reserva? Hoje podemos falar do mercado de protocolos e criptografia como uma evolução do sistema financeiro que usamos durante toda a história da sociedade moderna. Isso é bom porque podemos testar e escolher o melhor modelo econômico, alavancar nosso processo evolutivo, tecnológico e científico e reduzir problemas como a desigualdade.

Passamos por várias atualizações nos meios de troca ao longo da história, e hoje existem incontáveis mercados caminhando na direção do que sentimos. Sim, eles estão caminhando em direção às nossas emoções. Basta ver o marketing e a psicologia como objetos de estudo, ou aplicativos e redes sociais projetados para estimular a dopamina de quem os usa. Sabendo disso, deixe-me apresentar alguns conceitos.

Altered Carbon e o Cortical Stack

Em Altered Carbon, romance de ficção científica de Richard K. Morgan, viagens espaciais, consciência como dado e emoções como moeda de troca deixaram de ser impossíveis. Nesse futuro, os humanos encontraram a imortalidade por meio da tecnologia.

O centro dessa ideia é o Cortical Stack, um disco em formato de vértebra inserido na base do crânio que armazena as memórias, as experiências e a personalidade de quem o carrega. A morte verdadeira só ocorre se o disco for destruído, e mesmo isso pode ser contornado com uma cópia de segurança, por um preço. O corpo vira uma "capa" temporária, e a consciência digitalizada pode ser colocada em outro corpo num processo chamado re-sleeving. Todo ser humano recebe o seu stack a partir do primeiro ano de vida.

Parece distante, mas já há quem trabalhe nisso. O bilionário russo Dmitry Itskov, por exemplo, anunciou o projeto de transferir mentes humanas para um computador, segundo a BBC Brasil. A ideia por trás, a transferência mental (mind upload), é exatamente a de um Cortical Stack.

Neuromancer e o cyberpunk no centro do mundo

Em Neuromancer, de William Gibson, o cyberpunk domina a sociedade. Ali, a tecnologia no corpo deixa de ser escolha e vira condição de existência, já que o potencial humano é maximizado por implantes. É o caminho que podemos estar trilhando com CRISPR, criptografia, metaverso, realidade aumentada e IA.

A maioria das obras cyberpunk mostra um cenário em que a tecnologia maximizou o potencial humano, físico e mental, mas também uma desigualdade socioeconômica jamais vista. Esse é apenas um futuro possível. Não existe bola de cristal que preveja como estaremos, e nem tudo é pessimismo no cyberpunk.

Cena de Ghost in the Shell
Ghost in the Shell: uma mente humana num corpo artificial, a pergunta central do cyberpunk. GIF: TIFF, via GIPHY

No trailer de Alita, um corpo artificial abriga uma consciência humana.

O que é o cyberpunk?

O cyberpunk é um subgênero da ficção científica que ganhou espaço além da literatura, em filmes, séries e jogos. E quando falamos de inovação, vale lembrar que a ficção científica antecipa movimentos, tecnologia e até comportamento humano. Dizem que a vida imita a arte, mas talvez a literatura seja a maior ferramenta para escrever e modelar o futuro. Como vamos conceber algo se não imaginarmos? E, se imaginarmos, como vamos compartilhar se não escrevermos?

A literatura foi uma tecnologia arrebatadora, e hoje temos a World Wide Web, onde compartilhamos vídeos, fotos, textos, experiências e sensações, e convivemos em sociedade dentro de um ciberespaço. Podemos dizer que a internet é a evolução da literatura nesse aspecto.

Pelo nome, temos cyber, de cibernético, e punk, de rebeldia. Mas muita gente esquece que a tecnologia é, por natureza, neutra: os impactos negativos e positivos vêm da interação entre a tecnologia e o comportamento humano. Por interpretação, proponho três leituras:

  • Cyberpunk A1. A tecnologia, aliada à sociedade, se rebela contra a soberania política ou corporativa que a oprime. Pouco desenvolvida até hoje.
  • Cyberpunk A2. A tecnologia em rebeldia contra a humanidade, muito explorada nos anos 1980 com autômatos humanoides e IA.
  • Cyberpunk A3. A humanidade completamente dependente da tecnologia, muito explorada nos últimos anos, e com impactos que já vemos no presente.

O Conceitos.com resume bem o cenário: tribos urbanas que se opõem ao sistema, atmosfera pseudoapocalíptica, inteligência artificial, engenharia genética e multinacionais que substituem o poder político, numa paisagem urbana cibernética e decadente, de grafites e luzes de neon. Daí surgem as perguntas que o gênero sempre faz: seremos dominados pela inteligência artificial? Somos capazes de dominar a tecnologia? Nosso ser individual será o mesmo quando a cibernética e a engenharia genética nos diferenciarem? Quando nossas experiências forem guardadas num chip, continuaremos sendo nós mesmos?

Um mundo cyberpunk otimista

Num cyberpunk otimista, a tecnologia avança a ponto de tornar a vida mais fácil. As cidades ganham prédios futuristas e drones, as pessoas usam implantes para melhorar habilidades físicas e mentais, e as realidades virtuais ficam comuns. Mas, ao contrário do cenário típico, as pessoas vivem em harmonia com a tecnologia e a sociedade é justa. A tecnologia serve à humanidade, e não para controlá-la.

Isso passa pelo livre-arbítrio. A tecnologia pode ampliar nossas escolhas ou ser usada para controlar comportamentos. Por isso precisa ser usada de forma responsável e ética, respeitando a capacidade das pessoas de decidir.

E passa pela morte. A tecnologia ajuda a prolongar a vida, mas ainda não temos evidência de que possa vencê-la. Podemos retardar o envelhecimento, tratar doenças cardíacas e diabetes, e usar regeneração de tecidos e engenharia genética para reparar órgãos danificados pelo tempo.

Humanos, cyborgs e X-humanos

Já somos quase cyborgs, com um celular na mão a cada segundo do dia. Termos como cyborgs, humanos híbridos ou humanos tecnológicos descrevem pessoas aprimoradas pela tecnologia, mas é improvável que deixemos de ser humanos. A tecnologia melhora nossas capacidades, e continuaremos sendo seres humanos, sempre.

A artificialidade humana, a incorporação de tecnologia ao corpo, tende a crescer: implantes para memória e velocidade de processamento, próteses para membros perdidos e, na minha opinião o caso mais interessante, a reparação ou substituição de tecidos e órgãos danificados pelo tempo ou por doenças.

Perguntas frequentes

O que é o Cortical Stack? É o disco implantado na nuca, em Altered Carbon, que guarda a consciência digitalizada de uma pessoa e permite transferi-la para outro corpo.

Mind upload já existe? Não. É uma área de pesquisa e de projetos ambiciosos, como o de Dmitry Itskov, sem nenhuma consciência transferida até hoje.

O auge da evolução é o declínio?

O dinheiro virou dado, as emoções viraram mercado e o corpo pode virar plataforma. Fica a pergunta para você: o auge da evolução é o declínio, ou é o começo de algo melhor?

Douglas Henrique, DOUVRAS Labs. Publicado originalmente no LinkedIn em 10 de fevereiro de 2023.

Referências

Morgan, R. K. Altered Carbon. Del Rey, 2003 (1ª ed. Gollancz, 2002). ISBN 9780345457684. Open Library.

Gibson, W. Neuromancer. Ace Books, 1984. ISBN 0441569595. Open Library.

BBC News Brasil. Bilionário russo quer transferir seu cérebro para computador e 'imortalizá-lo', 2016. Link.

Wikipedia. Transferência mental. Link.

Conceitos.com. Conceito de cyberpunk. Link.

Quer aplicar isso na sua empresa?

Conte o problema. Respondemos pelo WhatsApp e, se fizer sentido, marcamos uma reunião.

criptomoedascyberpunkfuturotecnologia
Todas as notas
Dinheiro, criptomoedas e emoções: o futuro será cyberpunk? — DOUVRAS Labs